Por Filipe Sampaio – Diretor Executivo
Poucos setores carregam tantos contrastes quanto a logística no Brasil.
De um lado, avanços tecnológicos, centros de distribuição de última geração, rastreamento em tempo real e automação de processos.
De outro, estradas precárias, gargalos portuários, alta carga tributária e custos operacionais que estão entre os mais elevados do mundo.
É nesse terreno desigual que empresas precisam tomar decisões estratégicas — equilibrando a urgência de competir globalmente com as barreiras estruturais que ainda travam o crescimento.
Um cenário de números pesados
De acordo com o Instituto de Logística e Supply Chain (ILOS, 2024), os custos logísticos no Brasil representam 18,4% do PIB, contra cerca de 8% nos Estados Unidos e 10% na Europa.
Desse total:
- 9,3% estão no transporte, majoritariamente rodoviário.
- 7,0% estão no custo de estoques.
- O restante se divide entre armazenagem, gestão e outros fatores.
Para setores como o automotivo, químico e agroindustrial, essa diferença percentual se traduz em milhões de reais por ano e impacto direto na competitividade global.
O desafio estrutural
A dependência do modal rodoviário — responsável por mais de 60% do transporte de cargas no país — aumenta a vulnerabilidade a fatores externos como:
- Preço do diesel.
- Condições das estradas.
- Gargalos urbanos e intermunicipais.
Além disso, a infraestrutura portuária e ferroviária, embora em crescimento, ainda está distante do necessário para atender à demanda de exportação e distribuição interna com eficiência.
A transformação em curso
Apesar dos desafios, há sinais claros de mudança:
- Crescimento de soluções de rastreamento e controle de ativos.
- Uso de automação e RPA para reduzir custos invisíveis.
- Maior integração entre parceiros logísticos e indústria.
- Investimentos em tecnologia para aumentar previsibilidade e visibilidade operacional.
Segundo a McKinsey (2023), empresas que investem em tecnologia e integração na cadeia de suprimentos no Brasil podem reduzir custos em até 20% e melhorar o nível de serviço em 30% — ganhos que colocam essas operações no patamar de líderes globais.
O Brasil não eliminará todos os gargalos estruturais no curto prazo.
Mas as empresas que conseguem navegar nesse ambiente, combinando gestão estratégica, uso inteligente de dados e parcerias sólidas, constroem uma vantagem competitiva difícil de replicar.O futuro da logística brasileira será moldado não apenas pela infraestrutura disponível, mas pela capacidade de transformar restrições em eficiência — e de fazer isso de forma consistente.